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"Crenças e Desavenças" - Editora Baraúna
"Qual será o Sabor da crônica?" - Editora Baraúna
Cada título contém 40 crônicas e pequenos contos de pura alegria com o mesmo número de receitas "que dão certo". Pedidos através:
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sexta-feira, 11 de junho de 2010

A PRIMEIRA NAMORADA

Conheci Celina, minha primeira namorada, numa quermesse (festa de Igreja) de Santo Antônio. Tínhamos uns 15 anos, só que ela aparentava mais, pois era um mulherão, linda de morrer! Quase não acreditei que estivesse me paquerando. Percebi que ela estava fumando e mandei alguém entregar a ela um maço de cigarros Minister, onde escrevi o número de meu telefone. Ela mandou o maço de volta, com seu número também. Eu era tão tímido que esperei ela ligar primeiro

Além de tímido, era ingênuo também. Antes de nosso primeiro contato intimo, ela me alertou que já não era mais virgem pois, quando pequena, "machucara-se" ao pular uma cerca de bambus. Acreditei piamente e dei graças ao bambu e a partir daí, rolou nossa paixão que durou dois anos.

Não há mal que sempre dure e nem bem que não se acabe... e o meu namoro com a Celina , para minha tristeza, uma noite se acabou e de uma forma cômico/trágica. Como já disse em outra ocasião, sempre gostei de bailes e dançar era a minha diversão preferida.

Os chamados "Bailes Havaianos" de hoje, nem de longe fazem lembrar o charme e a importância que tinham esses eventos para nós, adolescentes dos anos 70.

Eram anuais, sempre em Setembro e a preparação começava semanas antes com a confecção dos colares multicoloridos (de papel crepom) e das roupas que, obrigatoriamente tinham que ser a camisa solta, estampada com calças brancas para os homens e os "sarongs" para as mulheres.

Naquele ano de 1971, o Baile aconteceria na sede social do Palmeiras. Minha prima, costureira, havia confeccionado para mim uma camisa estampada de azul com flores brancas e uma calça de cambraia de linho branca bem apertada e com boca de sino (era moda na época).

Iríamos a pé até ao clube, pois o carro era meu guarda-chuva. Há dias estava com problemas intestinais, uma diarréia que remédio nenhum curava e mesmo assim fui, pois já tínhamos a mesa comprada e roupas prontas.

Saí de minha casa por volta das 22 horas para apanhar a Celina e na subida do morro da Canjica, a vontade apertou: comecei a andar depressa mas não deu para segurar...

Que desespero, meu Deus! Voltar para casa não podia pois já estava longe. Chegar até a casa da namorada, nem pensar!

Lembrei-me que minha prima, a costureira, morava bem perto e corri para lá mas ninguém atendeu à campainha. Pulei o muro e fui até o quintal. Enchi de água o tanque de lavar roupa, tirei a roupa e lavei-me com um sabão de cinzas que encontrei.

A calça branca estava completamente perdida e fiquei ali, pelado, tremendo de frio, esperando ela chegar, o que demorou umas três horas. Levou-me para casa e como já era tarde e nem roupa havaiana tinha mais, fui dormir.


No outro dia soube que a Celina, fula da vida, foi ao baile, com alguns amigos. Dançou a noite toda e lá conheceu aquele que veio a ser seu futuro marido. Até hoje ela não sabe o motivo do meu cano, mas se chegar a ler esta crônica, vai ficar sabendo... quase quarenta anos depois!

Pois é, a primeira namorada a gente nunca se esquece...nem a primeira "dor de barriga"...

Meio difícil associar alguma receita a essa crônica mas vou postar um bolo de fubá delicioso, em homenagem a Santo Antônio.

BOLO DE FUBÁ: 4 ovos; 1 copo grande de leite fervendo; 1 pitada de sal; 2 copos de açúcar; 1/2 copo de óleo; 1 copo de fubá mimoso; 1 copo de farinha de trigo e 1 colher (sopa) de fermento em pó. Bater as claras em neve, misturar as gemas e acrescentar os demais ingredientes, aos poucos, misturando bem. Assar em forma de buraco no meio, untada com margarina e farinha. Depois de assado, espalhar açúcar e canela por cima. Se gostar, acrescentar um pouco de erva-doce na massa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

DA BAHIA À CORNUALHA - II

Foram 25 anos de agonia e êxtase... Sentada num promontório rochoso, selvagem e completamente isolado da pequena urbe, Maria da Paz repassava mentalmente todas as alegrias e tristezas vivenciadas naquele fim de mundo, tão estranho para ela, mesmo depois de tantos anos.

Ela e a sogra sempe se destestaram mutuamente. O primeiro "pega" deu-se, já, no primeiro dia em que ficou sozinha, naquela casa sombria que abrigara várias gerações da família Hornblower, desde o século XVII. Jan saira com a mãe, a fim de comprar algumas roupas decentes para a jovem. Maria da Paz, sem tem o que fazer e querendo agradar àquela mulher fria e sizuda, começou a arear algumas panelas escuras que encontrara na cozinha.

Pensando que eram pretas de tanta gordura e fumaça de fogão, juntou um punhado de areia a uma palha de aço e esfregou que esfregou, até deixar os utensílios brilhando como prata. Quando a sogra viu aquilo, soltou um grito de horror e raiva. Começou a esbravejar para o filho, dizendo que passara vários meses juntando dinheiro e coragem para comprar aquelas panelas caríssimas. Era um conjunto de Teflon negro, recém lançadas no mercado europeu. "E, agora, essa selvagem estragara tudo!"

A baianinha, sem entender nada, desandou a choramingar e a balbuciar, num inglês terrível: "Mas, Jão, passei a tarde todinha areando essas panelas, estou até com a mão dura!"

Afora as oportunidades em que acompanhava o marido em suas viagens mar adentro, sua vida era muito triste e a sogra fazia de tudo para torná-la pior. As duas tiveram que separar a casa ao meio e cada uma tinha seu território.

Essa divisão deu-se após uma tarde em que, aproveitando-se da ausência da nora, Miss Daphne desmontou o altar dos orixás que a nora mantinha em seu quarto. Destruiu todas as imagens, jogando-as no mar. Para o filho, a mulher justificou-se:" É vodu dos bravos, coisas do demônio!" Em represália, Maria da Paz, armada de um atiçador de lareira, quebrou todas as porcelanas da sogra, salvando-se, apenas, uma chávena de chá "Companhia das Indias", herança da avó ou bisavó de Jan.

E foi através dessa xícara remanescente que, muitos anos depois, Maria da Paz deu o golpe final de desforra sobre a sogra.

A Internete já havia chegado àquele rincão desolado e na casa havia dois computadores, um para cada mulher. Foi por essa época, também, que "da Paz" ficou viúva, após o naufrágio de um dos barcos pesqueiros que levou Jan consigo, para o fundo do Canal da Mancha.

A solidão tornou-se insuportável. Já nem se importava mais com a presença da sogra, a qual, aliás, passou a tratá-la com mais suavidade, talvez, com medo de ficar sózinha, caso a baianinha resolvesse voltar para o Brasil. Frequentemente convidava a nora para partilhar de seu chá ou de seus bordados.

As vezes, enquanto Maria da Paz bordava, Miss Daphne entrava na Internete e ali ficava, batendo bapos com outros internautas, usando o pseudônimo de ESTRELA DO ORIENTE. Enquanto teclava, bebericava goles de chá, naquela única xícara que lhe restara.

Foi então, que surgiu a idéia maquiavélica: De seu computador, Maria da Paz acessou a mesma sala de bate papo que a sogra frequentava e com o apelido de TUAREG, começou a "paquerar" a ESTRELA DO ORIENTE. Dizia ser um advogado, aposentado e viúvo. Morando em Londres, com um único filho, sentia-se tão solitário quanto ela. Em poucos dias, Miss Daphne estava apaixonada e dizia para a nora que o tal de TUAREG, profundo conhecedor da alma feminina, conseguira reimplantar em seu coração, aquele sentimento que há décadas não mais sentia...

Desenvolveu-se o namoro on-line, até o ponto em que marcaram um encontro para se conhecerem. Miss Daphne contratou faxineiras para deixar a casa brilhando e preparou um jantar especial para compartilhar com o amado. Porém, terminou a noite sorvendo xícaras e mais xícaras de chá, frente ao computador, tentando encontrar o amado e saber o por quê do "cano".

Passaram-se semanas de silêncio até que o TUAREG deu o ar da graça, dizendo que estivera na UTI, vitimado que fora por três infartos seguidos. Escreveu ainda que se o pior acontecesse, ela seria notificada, através de seu filho.

Certa noite, Miss Daphne, aborrecida com o desaparecimento misterioso de sua xícara de chá, recebeu um e-mail, do "filho" de TUAREG, comunicando-lhe o falecimento do pai. Na mensagem, solicitava que a mulher informasse seu endereço pois que o pai, em seus últimos momentos, pedira que fosse-lhe enviada sua foto, com um presente_ um objeto pessoal que ele estimara muito.

Dias depois, sob o olhar curioso e malévolo da nora, Miss Daphne abriu uma linda caixa, recebida pelo "Express Postal Service", contendo um xícara idêntica à que perdera e mais a foto de um anão, com uma "dedicatória" de TUAREG...

Já que falei tanto em chá, seguem umas dicas básicas de chás (sempre na forma de infusão) e suas propriedades medicinai.

CHÁS - Carqueja (digestivo); Erva Cidreira (gases, calmante); Alecrim (insônia e depressão); Hortelã (máu hálito, insônia e calmante); Louro (dor de estômago); Sálvia (dor de garganta e resfriado); Endro (espasmos digestivos); Poejo (má digestão, arrotos); Funcho (calmante e asma); Malva (bexiga); Losna (cólica, diarréia e náuseas); Boldo (indigestão) e Alfazema (enxaqueca e indigestão).


terça-feira, 1 de junho de 2010

DA BAHIA À CORNUALHA - I

A Costa do Dendê, situada entre o Recôncavo Baiano e o Rio das Contas, no litoral sul da Bahia, era ocupada pelos indios Tupinambás, quando do descobrimento. Essa tribo foi dizimada pela varíola, abrindo espaço para os Aimorés e, posteriormente, para os jesuítas portugueses que a colonizaram.

Bem próxima à Costa, está situada Boibeba, uma ilha deslumbrante, distante 100km de Salvador, com um clima excelente e praias luxuriantes. O povoado, apesar de pequeno, é um dos locais de colonização mais antigos da Bahia (1537).

E foi ali que nasceu Maria da Paz. Criada e crescida no meio dos mangues, a catar siris e caranguejos, que seus pais vendiam aos turistas, num boteco à beira mar.

Ali pelos dezesseis anos, Maria da Paz foi-se embora para Salvador, a trabalhar como faxineira diarista, por um tempo e, posteriormente, como garçonete. Dava um duro danado, mas jurava nunca mais voltar ao povoado natal: "Não nascíprá aquilo", dizia ela.

A Cornualha é um condado britânico, com pouco mais de 500 mil habitantes, situada ao extremo sul da Inglaterra. Uma inóspida região, açoitada pelos ventos costeiros e referendada como sendo a lendária terra perdida de Lyonesse, nas aventuras do rei Arthur e seus cavaleiros da távola redonda. Tem em seu nome _Cornwall_ antiga origem galesa da palavra "corno".

Numa ponta da península, avançando pelo Canal da Mancha, situa-se a pequena cidade de Land's End (traduzindo-se para um bom português, "cu de Judas"). A cidadezinha medieval, no topo das escarpas rochosas, quase que se debruça sobre mar revolto e violento.

E foi alí que nasceu Jan Hornblower, criado e crescido no meio de peixes, já que seu pai era dono de uma pequena frota de barcos pesqueiros.

Aos 21 anos, após a morte do pai, o rapaz assumiu o comando da frota, o que o obrigava a ficar longas semanas distante de casa, numa solidão tremenda. Uma vez por ano, costumava viajar para lugares bem distantes, preferencialmente exóticos e diversos de sua triste terra natal.

Nos finais de semana, Maria da Paz fazia questão de não trabalhar, alegando que era o único tempo disponível que tinha para achar seu futuro. Com esse intento, ficava horas na praia, fingindo ler um volumoso romance e tostando-se ao sol. Sem coragem de usar biquini, "da Paz" vestia, sempre o mesmo maiô, tipo "arrastão", com duas peças e uma espécie de redinha que unia a parte de cima com a parte de baixo, deixando, apenas, uma visualização do umbigo.

Foi vestida assim que, na Praia do Forte, Jan Hornblowar a conheceu. Ela, uma mulata alta, sangue mestiço, pernas bem longas e cabelos da cor do carvão. Ele, um britânico alto, puro sangue celta, pernas bem longas e cabelos da cor do milho.

Em férias no Brasil, já estava meio enjoado das presas fáceis que encontrara pelas praias do nordeste, porém, encantou-se com aquela trigueirinha de sorriso espontâneo, dentes brancos e corpo de deusa. Cheia de dengos e fazendo-se de difícil, em poucos dias, Maria da paz conquistou o coração do gringo.

De volta à terra, Jan chorava a separação, medindo com o coração as longas cinco mil milhas que o separava da amada. Após muitas cartas e telefonemas, capitulou ante à paixão e para lá chamou nossa baianinha, após um apressado casamento por procuração.

Como Jan lhe contara que Land's End era cercada por mar, levou na mala, dentre quase nada, seu maiô arrastão, duas "piranhas" de prender o cabelo e um pote de "Hené Maru" para alisar as caraminholas. Não se esqueceu dos patuás e nem das imagens de seus orixás protetores. Desceu em Londres, numa manhã fria e brumosa, quase em pânico. Deu um grito quando avistou seu amado "Jão", como ela o chamava. Correu a abraçá-lo, tascando-lhe um beijo, daqueles de desentupir pia, sem ao menos perceber que Jan estava acompanhado de uma senhora alta, extremamente branca e ainda bonita.

Era a sogra, Miss Daphne Hornblowar que, vestida num longo manteaupreto, a tudo assistia, dando claros sinais de reprovação, ante àqueles arroubos, para ela incabíveis.

Com os olhos brilhantes, Maria da Paz abriu ali mesmo, um pequeno isopor, lotado de acarajés, fritos e acondicionados há mais de vinte horas atrás. Entregou o pacote ao rapaz, dizendo: _O que você mais gostou na Bahia, alem "de eu"...

O saguão do aeroporto ficou impregnado pelo forte odor do dendê. A sogra tapou o nariz com um lencinho de seda e ordenou ao filho que jogasse aquilo no lixo.

Foi antipatia mútua e instantânea.

ACARAJÉ: 1 Kilo de feijão fradinho (aquele que tem um "olhinho" na barriga); 3 cebolas grandes; 3 dentes de alho; 300 gramas de camarões secos; sal e 1 litro de azeite de dendê. Deixe o feijão de molho de um dia para o outro. Esfregue-os e lave-os em várias águas, para soltar a casca. Passe em moedor ou processador, juntamente com a cebola e 300 gramas de camarão seco e bata, com colher de pau, até ficar uma massa leve (Quanto mais bater, mais leve fica). Tempere com o sal (cuidado), pimenta e dendê. Coloque o azeite de dendê em frigideira bem quente e frite às colheradas, virando-os apenas uma vez. Abra os acarajés e sirva bem quente, recheado com vatapá ou com o seguinte molho de camarão: Refogar em uma xícara de azeite de dendê, 3 cebolas, alho a gosto e 700 gramas de camarão defumado sem casca, cheiro verde e pimenta a vontade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O "CHICO BELO"- II

Depois do susto na caixa d'água, o Chico Belo aquietou-se por um bom tempo. Inclusive, meu irmão mandou-o para Morrinhos, no interior de Goiás, com o propósito de tomar conta de uma boiada e que ficasse por lá até que as reses fossem vendidas. Nos finais de semana, quando ocorriam os leilões, meus irmãos iam para lá, hospedando-se em hotéis ou pensões, enquanto o Chico Belo dormia em um barracão, juntamente com vários outros boiadeiros.

Nos leilões e rodeios, sempre havia, entre os vaqueiros, um cozinheiro responsável pela gororoba do dia a dia. Não precisava ser um grande chef de cuisine para satisfazer aquele bando de homens, quase sempre bêbados. Bastava saber fazer um arroz com suã, feijão, charque ou carne moída e, de vez em quando, assar uma carninha. Dessa vez, lá em Morrinhos, o cozinheiro era o Aléssio, gay assumido e já meio coroa.

O povo dizia que o Chico era bem dotado, inclusive tinha o apelido de "Chico Tripé". Assim que o Alessio soube da fama, começou a derrubar as asinhas sobre ele, preparando-lhe pratos e sopinhas especiais.

Numa tarde, em que o Chico Belo chegou meio bêbado, o Alessio resolveu assediá-lo e quando nosso amigo preparava-se para deitar, o cozinheiro caiu em cima dele. Chico Belo já tinha descalçado uma das botas e num reflexo defensivo, meteu o grosso salto de madeira na testa do outro. Largou o cozinheiro por ali, sangrando, e foi pedir guarita aos meus irmãos, na segurança do hotel.

Naquela mesma noite, foram todos a um arrasta-pé num galpão improvisado, ali por perto dos currais e barracão. Estenderam umas lonas, seguradas por bambus, penduraram um lampião de carbureto no teto e "dá-lhe pinga, sanfona e pandeiro".

Chico Belo levou um farolete para guiá-lo na escuridão do caminho e chegando ao bailão, colocou o instrumento no bolso das calças, caindo na farra. Tirou para dançar, uma das caboclas, daquelas goianas bem parrudas e a mulher foi logo esfregando-se nele, toda assanhada.

Na verdade, a mulher "acoxava" ele só para provocar o amante que também estava por ali, dançando com outras. E o Chico Belo, pensando que estava agradando,foi logo avisando, num tom safado: _ Calma, morena, que o volume que você está sentindo, é só o farolete que eu guardei no bolso!

Não demorou muito até que o namorado da goiana invocou com a sem-vergonhice da mulher e partiu para cima do casal. Com um soco certeiro, derrubou o Chico na poeira do salão. O pobre, vendo-se acossado em meio a tantos desconhecidos, não teve duvidas: arrancou do bolso o farolete e num arremesso certeiro, atingiu o único lampião que alumiava o bailão.

Naquela escuridão toda, o barraco veio a baixo e o fuzuê ardeu feio! Mais uma vez Chico belo conseguiu safar-se da morte por vingança passional. Acabou seus dias, numa roça de milho, por conta do veneno de uma jaracuçu do rabo grosso.

Como exemplo das comidas fortes e saborosas, costumeiras nesses ranchos e fogões de boiadeiros, passo essa receita de:

SUÃ COM ARROZ: 3 quilos de suã (vértebras com parte do filé suíno); 4 ou 5 xícaras de arroz; alho; sal; cebola; cheiros verdes; pimenta a gosto; manjericão; louro; limão; azeite e 1 colher (sopa) de colorau. Compre suãs bem carnudos mas não muito grandes e tempere-os com sal e limão. Bata os demais temperos no liquidificador com 1 xícara (chá) de água e junte-o ao suã, deixando marinar por algumas horas.

Frite os pedaços em óleo quente, numa panela grande, até ficarem bem dourados. Acrescente o colorau, um tanto do tempero batido e vá juntando água fervente, aos poucos, até ficarem macios. Misture o arroz lavado e água fervente suficiente (uns dois dedos acima da mistura), acerte o sal e tampe a panela. Deixe em fogo baixo até o arroz ficar cozido, porém, ainda úmido. Espalhe salsinha por cima e sirva de imediato, acompanhado de salada de folhas.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A TIA - II

Descobri o nome das três morenas da paineira: Alzira, Elmira e Elvira. A do meio é a Tia.

No último aniversário do Ciro Ney, nós fizemos Tia Elmira tomar quase uma garrafa inteira de cachaça. Até colamos, no rótulo da bebida, um papel escrito: "da Tia". E ela bebeu... a noite toda! Disse-nos que estava chateada pois seu dia havia sido muito complicado, por força das limitações que a idade lhe impunha e pela incompreensão das pessoas.

Após meia garrafa de cachaça, ela contou-nos a razão de suas mágoas: Naquela manhã ela acordara bem contente, pois iria almoçar na casa do Landão, um antigo amigo. Estranhou o fato de estar sem a dentadura de cima e não se lembrava de tê-la tirado para dormir. Procurou na gaveta do criado mudo, na penteadeira, na pia do banheiro e nada!! Desesperada, ligou para o amigo, mentiu que estava com uma forte enxaqueca e cancelou o almoço: Jamais sairia sem dentadura...

Mais tarde, quando foi arrumar e alisar as cobertas da cama, sentiu algo saliente. Era a dentadura que escapara de sua boca, enfiando-se num buraco do velho edredom. Retornou para o Landão, confirmando sua presença, "já que a enxaqueca havia passado."

O amigo serviu feijoada e tomaram várias caipirinhas. A sobremesa foi uma espécie de torta de chocolate, chamada Tiramissú, deliciosa mas que, definitivamente, não combina com feijoada e cachaça!

De repente, a dor de barriga apertou... Percebendo que a "explosão" seria terrível, não quis usar o banheiro de Landão e foi despedindo-se às pressas. Morava no final da avenida mas, já no começo, sabia que não daria tempo de chegar.

Pelo meio do caminho, entrou numa loja das Casas Pernambucanas, mas a balconista ruiva, "com unhas de puta", foi categórica: _ O toilette é só para funcionários!

Percebendo que não adiantava insistir, branca como os lençóis que a balconista dobrava, Tia Elmira saiu da loja, cambaleante: _ Meu Deus, não vou aguentar!

Um pouco mais adiante, ela topou com uma jovem, com roupas de enfermeira que saía de sua casa, com as chaves na mão. Enquanto a moça encostava o portãozinho do corredor, a Tia agarrou seus braços, desesperada: _ Filha, pelo amor de Deus! Deixe-me usar teu banheiro?

_ Ah, larga do meu braço sua velha doida! Eu já estou atrasada e não vou abrir a casa para ninguém... A Tia, com as pernas cruzadas e as mãos na barriga, ainda insistiu: _ Por favor, estou quaze fazendo nas calças! A enfermeira respondeu-lhe com a bunda e assim que dobrou a esquina, Tia Elmira empurrou o portãozinho e correu para uma pequena varanda, no fundo do quintal.

Agachou-se e foi aquela pororóca! Sentiu até os pelos dos braços arrepiarem-se de tanto alívio. Como não achou papel, limpou-se com um lençol branco que encontrara no varal. Saindo dalí, retornou à Loja da Pernambucanas e procurou a mesma balconista ruiva que lhe recusara o toillete. _ Pegue para mim dois lençóis brancos, dos mais caros que tiver na loja.

Após a venda, a moça perguntou-lhe: _ A senhora vai usar o crediário?

A Tia, com ar de desdém, respondeu-lhe: _ Não, filha... eu compro com cartões de crédito. Quem usa crediário são as balconistas ou enfermeiras!

Pediu papel e caneta emprestados, escreveu um bilhete e voltou à casa da enfermeira. Olhou para a varanda e riu-se do estrago que aprontara. Estendeu os dois lençóis novos no varal e deixou, preso ao arame, o seguinte recado: _ Sou velha, mas honesta!!

Tudo bem, não deveria mas...vou deixar a receita da sobremesa italiana:

TIRAMISSÚ: 4 ovos; 4 colheres de açúcar; 300 gramas de requeijão firme (mascarpone); 1 lata de creme de leite (sem soro); 1 pacote de biscoito champagne; 1 colher (de chá) de baunilha; 1 colher (sopa) de licor de cacau ou brandy; 1 xícara grande de café e 100 gramas de chocolate meio amargo raspado ou chocolate em pó.

Bater as gemas com o açúcar, adicionar o requeijão, o creme de leite e bater mais. Misturar com as claras em neve, até ficar um creme uniforme. Juntar o licor (ou brandy) ao café, molhando os biscoitos nessa mistura. Forrar uma travessa com os biscoitos molhados e espalhar metade do creme por cima. Dispor outra camada de biscoitos e o resto do creme. Alisar bem e espalhar o chocolate (raspado ou em pó). Levar à geladeira.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A TIA

Prá falar a verdade, no momento, esqueci-me do nome dela. Mas é Tia da Marlene, mulher do Ciro Ney, meus amigos. Aliás, nós todos a chamamos por Tia e ela é uma figura ímpar, umverdadeiro barato!

Muito embora já tenha passado a casa dos setenta, é uma mulher vaidosa e bem bonitona. Não aparenta a idade que tem... Disse-nos que na juventude, ela e as irmãs foram famosas bela beleza. Eram conhecidas como as "morenas da paineira", pois moravam numa chácara, pertinho da cidade e na porteira de entrada, havia uma árvore dessa, bem grande.

Pelo gosto do pai, elas deveriam casar-se com doutores ou fazendeiros e preparou-as para isso. Todas sabiam tocar piano, receberam aulas de etiqueta e falavam o francês fluentemente. Mas, designos do destino... nada disso aconteceu! A mais velha casou-se com um violeiro, a Tia, com um caminhoneiro e a mais nova, tornou-se professora e solteirona.

A mulher do violeiro ficava acordada, noites e mais noites, à espera do marido, o qual, invariavelmente, chegava bêbado e com a viola fora do saco. E, ai dela, se reclamasse! Levava violada na cabeça... Bebeu tanto, até morrer com cirrose hepática.

Ver imagem em tamanho grandeO marido da Tia era um romântico e ela, apaixonada, não se cansava de elogiar o maridão. Sujeito trabalhador, passava semanas e semanas na estrada, a fim de trazer conforto para ela e aos filhos! Toda a vez que retornava de Belém do Pará, trazia-lhes pupunha, cupuaçu, açaí e outras frutas típicas daquelas terras.

O que ela não sabia é que quando ele para lá voltava, também levava jabuticabas, uvas, pinhão e goiabada cascão para a família que mantinha em Belém: mulher e dois filhos...

Acabaram contando para ela e a Tia ficou desarvorada, sem saber o que fazer. A irmã solteirona dizia-lhe para abandonar o marido. A viúva, aconselhava: "Fica com ele, pois eu sei o que é solidão... É melhor dividir um bife do que comer agrião!"

Mulher ferida não raciocina e... o homem foi-se embora. A coitada ficou com uma pensão tãomerreca, que mal dava para pagar o aluguel. Aos poucos, vendeu tudo o que tinha. De valor, mesmo, só lhe restaram o fusca vermelho e um anel de brilhantes. Já no fim do poço, a irmã deu-lhe a idéia: "Vamos até Aguaí, lá tem um macumbeiro dos bons e com a a ajuda dele, teu marido volta para casa. Foi ele quem fez meu finado parar de beber..."

A Tia estranhou aquele papo: "Mas, se teu marido morreu com cirrose?!" A irmã ponderou: É, morreu... mas, uns dias antes, ele tinha largado da bebida!

O "pai de santo" afirmou-lhe que o marido voltaria para casa, dentro de três semanas, em troca do anel de brilhante que ela trazia no dedo. Ela concordou e aguardou. Passaram-se duas, três, quatro semanas e... nada!

De volta à Aguaí, dessa vez, o homem conduziu-as a um ranchinho no quintal, cheio de imagens com chifres e capas vermelhas: _ É, minha filha, os exús de Belém são bem fortes! A outra mulher fez um trabalho dos grossos, para segurar teu marido. Vai ser preciso muito dinheiro para quebrar as correntes. Quanto você pode pagar?

Acabou deixando o fusca, levando a promessa de que, antes de dois meses, o marido estaria entrando em sua casa: _ E pela porta da sala!

Numa tarde, lá pela hora da "Ave-Maria", a Tia viu estacionar à porta, uma perua de resgate. Dois homens entraram pela porta da sala, transportanto o corpo de seu marido. O caminhão, carregado de laranjas, havia tombado numa curva, próxima à Atibaia e o único endereço que encontraram nos documentos do acidentado, foi aquele, o da casa da Tia.

Dessa vez, a macumba deu certo e, naquele momento, veio-lhe à mente, as palavras do "pai de santo": _ Muito cuidado com o que pedes aos espíritos, pois eles poderão atender-lhe...

Acho que aí no texto, eu falei sobre pinhão e então, lembrei-me dessa receita muito boa:

ARROZ MORENO COM PINHÕES: 2 copos de arroz, 4 colheres (sopa) de óleo, 4 dentes de alho picados, 1 cebola pequena picadinha, sal, água e pinhões (já cozidos e cortados em lâminas bem finas). Lave o arroz e espere secar bem. Frite no óleo a cebola e o alho, até ficarem queimados. Junte os pinhões e frite mais um pouco. Acrescente o sal (pouco) e o arroz. Misture até ficar moreninho. Junte a água fervente, abaixe o fogo e espere secar.

Não tenha medo de queimar, pois o segredo está aí. Use pouco sal, pois o sabor fica a cargo do alho e da cebola queimados.

sábado, 1 de maio de 2010

O "CHICO BELO"



Meu pai e meus irmãos sempre "mexeram com vacas". Vacas leiteiras, bois de corte, touros reprodutores, bezerros para engorda e por ai a fora... Passei minha infância e adolescência sentindo aquele cheiro de curral: misto de leite, feno e bosta fresca de vacas. Até que era um cheirinho honesto e aconchegante!

Sinto saudade de quando meu pai ou algum dos irmãos mais velhos me acordava, tipo quatro ou cinco horas da manhã para acompanhá-los até ao sítio. Iam buscar os latões cheios de leite e trazê-los de volta à cidade para serem entregues na LECO, companhia de laticínio da região. Eles carregavam-me consigo, um tanto para fazer companhia e mais para abrir as porteiras que eram inúmeras

Parece-me que naquele tempo o inverno era mais intenso e com mais neblina. Chegava ao curral, morrendo de frio e corria com minha canequinha de alumínio para que o retireiro a enchesse com o leite que saia das tetas, quentinho que até soltava fumaça...

O local onde as vacas leiteiras ficavam chamava-se estábulo ou retiro e o empregado encarregado da ordenha era o retireiro. Tivemos vários retireiros, pois era uma profissão dura e poucos aguentavam o tranco por muito tempo. Lembro-me de um deles, chamado Francisco e apelidado pelos meus irmãos de "Chico Belo". Nada a ver com beleza, pois o homem era feio pra caráio e foi justamente por ser feio que meus irmãos, maldosamente, assim o apelidaram.

O Belo era muito briguento e por ser magrinho, vivia apanhando de todo mundo nos forrós que frequentava. Voltava para casa completamente bêbado e machucado, guiando sua carrocinha de dois assentos. Aliás, de tão zonzo, ele não guiava nada e quem se encarregava de levá-lo até à porteira do sítio era o coitado do burro. De tanto trotar por aqueles caminhos, o animal já estava condicionado ao trajeto.

Chegando em casa, descarregava toda a valentia na pobre da mulher, que apanhava mais que cabrita na horta. Dizem que ele costumava bater nela com o gato: pegava o bichano pelo rabo ou pelo cangote e socava-o nas costas e pescoço da esposa. A coitadinha ficava toda arranhada e mordida pelo gato endoidecido.

Vizinho ao sítio, morava uma família meio cigana. O marido usava um chapéu todo enfeitado com fitas e sempre trazia ao pescoço um longo lenço vermelho. Sua figura era reconhecida ao longe tanto pelo lenço berrante, como por sua montaria, uma égua preta, alta e nervosa. O homem, apelidado de Tião Sartana era meio arredio e de pouca prosa.

Não é que o Chico Belo foi se engraçar com a mulher do cigano! Era só o marido sair de casa que para lá ia o retireiro.

Quando meu irmão ficou sabendo do perigoso affair, resolveu pregar uma peça no empregado. Primeiro, alertou-o de que o Sartana ficara sabendo da traição e que tinha jurado vingança.

No domingo seguinte, enquanto o Belo curtia a bebedeira da véspera, deitado na varanda do seu rancho, um bando de cavaleiros invadiu o sítio, gritando e dando tiros para o ar. Na frente da turma, vinha meu irmão, montado num cavalo preto e com um chapéu e lenço idênticos aos usados pelo cigano.

A mulher do retireiro sabia da farsa e conforme o combinado, começou a gritar desesperada: _Chico, corre que aí vem o Tião Sartana !

O coitado, sem saber o que fazer, subiu no telhado e foi esconder-se dentro da caixa d'água. Puxou a pesada tampa de amianto e ficou ali, quietinho, com água pela boca. De vez em quando, meu irmão dava um tiro para o ar, em meio à gritaria dos comparsas. Por mais de uma hora o safado ficou tiritando de frio, com medo de descer.

Só saiu depois que ouviu o tropel de cascos, batendo em retirada. Por longo tempo, deixou de frequentar bailes e botecos, evitando, assim, confrontar-se com o inocente cigano.

Por conta do leite, vou ensinar, hoje, como minha mãe fazia seus deliciosos queijos frescos.

QUEIJO FRESCO: 4 a 5 litros de leite (de preferência natural, caso impossível usar o integral não pasteurizado, mais gordo do supermercado). Uma tampa medida de coalho dissolvido em meio copo de água filtrada (o melhor é da marca Estrela), 1 colher rasa (de sopa) de sal. Amornar o leite (bem pouco, mais ou menos 37 graus). Misturar o coalho e o sal, mexer bastante para agregar os componentes. Deixar descansando por mais ou menos 30 minutos, até coagular. Com uma faca comprida, talhar toda a massa na vertival e na horizontal (fazendo um xadrez), pois assim, a massa separa-se do soro (líquido). Aguardar uns 10 minutos e coar toda a massa numa peneira (de plástico) ou em um pano bem fino e poroso. Deixar escorrendo por uma meia hora.

Colocar a massa em uma forma toda furada (eu uso um aro daqueles tubos hidráulicos, de plástico, todo furado nas laterais). Espremer bem a massa com as mãos, dos dois lados, para o queijo ficar lisinho, sem buracos. Coloque numa tábua de bater carne, um pouco inclinada para continuar escorrendo, de um dia para o outro. Desenforme e guarde na geladeira.

Dicas: A) Todos os utensílios devem ser extremamente higienizados. B) É importante que escorra todo o soro amarelado para não azedar o queijo. C) Se quiser um pouco mais salgado, no momento em que estiver espremendo a massa na forma, esfregue sal nas duas superfícies. D) Talvez não seja da primeira vez que o queijo ficará perfeito mas, com a prática chegar-se-á à perfeição.