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"Crenças e Desavenças" - Editora Baraúna
"Qual será o Sabor da crônica?" - Editora Baraúna
Cada título contém 40 crônicas e pequenos contos de pura alegria com o mesmo número de receitas "que dão certo". Pedidos através:
www.editorabarauna.com.br - www.livrariacultura.com.br - jbgregor@uol.com.br

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

MADAME "ZOHRA"

           Minha sogra, quando morou em Paracatu/MG, abriu um restaurante num grande posto de gasolina da saída da cidade. Lembro-me que o fogão era enorme, com oito bocas e ficava no centro da cozinha. Além do restaurante ela alugava alguns quartos, contíguos ao posto, para os inúmeros viajantes que por ali passavam, rumo à Brasília, Goiânia ou Unaí. Era uma vida muito dura, ganhava um bom dinheiro mas levava bastante calotes, também.

Eu, que morava em Brasília, distante uns 200 km, adorava passar os finais de semana na casa dela; uma casa antiga dos tempos coloniais. Aliás, a cidade toda é um verdadeiro museu a céu aberto com casario e igrejas dos áureos tempos da mineração. Gostávamos de ir até as margens do rio Paracatu e seus pequenos afluentes para bater peneiras ou bateias.

 Nosso intento não era pegar peixes e sim tentar “garimpar” pó de ouro, metal ali abundante nos século XVIII e XIX,  tempos de Ana Jacinta de São José, a famosa Dona Beija, sua mais ilustre moradora. Ainda guardo um pequeno frasco cheio do valioso pozinho dourado, fruto de nossas aventuras garimpeiras.

Minha sogra resolveu fechar o restaurante após ter levado calote de um cearense muito alegre e falante que “levou a velha no bico” e por ali ficou por mais de um mês, comendo, bebendo e dormindo. Fugiu sem pagar a conta, deixando umas sacolas no quarto onde dormia e quando minha sogra foi “confiscar seus bens”, só encontrou duas redes velhas e várias bermudas e camisetas sujas.

 Passou a fazer bolos doces e salgadinhos para festas, pois não queria sair da cidade e muito menos morar conosco em Brasília. A bem da verdade, eu dava graças a Deus pois sempre fui partidário daquela máxima que ensina: “a sogra não deve morar tão longe a ponto de vir com malas e nem tão perto a ponto de vir só de chinelos...”

 Para complementar sua renda, passou a ler sorte e eu fui o causador dessa transmutação da excelente cozinheira que era para uma esperta “Buena Dicha”...Ela era descendente de espanhóis, da Catalunha, e sua sala era lotada de objetos  relacionados à Espanha: touros, castanholas, dançarinas de flamenco, leques e quadros de toureiros.

Olhando tudo aquilo, certo dia, tive a brilhante idéia: “Cibelle; já que você está nesse aperto danado, porque não começa a ler sorte. É só arrumar um baralho de tarô, decorar o significado das figuras e fazer cenas de mistério”. Ela adotou a idéia na hora, lembrando-se de que sua avó, Assunción Mariño, sabia ler as cartas.

 Comprei-lhe os apetrechos, inclusive um livro que ensinava os segredos da quiromancia. Em poucos dias ela estava “afinada”na leitura das mãos e no tarô. No início, anotava nas costas das cartas a primeira letra dos presságios: Nas costas do valete de copas ela escrevia “A” de amor ou amante apaixonado. Na dama de espadilha, era a letra “R” de rival; no reis de ouro era o $, de marido rico; no reis de espada, o “V” de vingança ou marido ciumento e assim por diante.

Resultado disso tudo foi que durante anos, com o pseudônimo de Madame Zohra, ela ganhou seu dinheiro na maciota e foi uma cartomante de sucesso até o fim da vida. Criou e manteve os sonhos de muita gente e falando em sonhos, vou transcrever uma receita dela que é  uma doçura:

 SONHOS DA CIBELLE:  2 colheres (sopa) de margarina ou manteiga; 2 colheres cheias de fermento (ou 3 tabletes); 20 colheres de açúcar; 2 ovos inteiros; 1 copo de leite morno; 1 pitada de sal e farinha que dê para amassar. Enrolar os sonhos e cobrir com um pano grosso, para crescer. Ponha uma bolinha da massa em um copo com água:quando subir, pode fritar os sonhos em óleo nao muito quente. Espalhar açúcar por cima e rechear com geléia ou com CREMINHO DE MAIZENA (meia lata de leite condensado, meia lata de leite comum; meia lata de creme de leite 1 gema e 1 colher de maizena, levar ao fogo até engrossar). 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A CIBELLE


  Minha sogra, Cibelle, foi uma das mulheres mais bonitas que eu já conheci. Ainda hoje, quando vejo as fotos de meu casamento, a mulher mais bela e vistosa no altar era ela (minha esposa nao conta, pois aparece de costas na foto). Descendente de espanhóis (Ponte Viedras) ela tinha uma pele claríssima e os cabelos pretos, ondulados.

 Era inquieta e teve varias residências, sempre trabalhando muito, fazendo de tudo um pouco (doceira, florista, dona de restaurante, de bar, de lanchonete e por fim uma famosíssima cartomante).
Nos bairros e cidades onde morou"deixou saudade" pois era uma mulher muito alegre e desbocada. Nunca vi minha sogra mal vestida, sem suas correntes e pulseiras douradas ou sem seu indefectível baton vermelho sangue.

Tudo foi muito intenso e rápido na vida dela: casou-se e foi mãe aos 15 anos, avó aos 34, divorciada aos 47, viúva aos 56, bisavó aos 60 e para o nosso pesar, aos 73 ...
  ... virou purpurina!

 Certa vez, quando minha mulher tinha uns 7 a 8 anos, foi com a mãe, visitar algum parente em São Paulo. Minha sogra vestia uma saia vermelha, com bolinhas pretas, muito justa. Parecia uma joaninha! _ aqueles besourinhos pintadinhos. Quando subia no bonde, com muita dificuldade, o condutor não esperou ela colocar os dois pés no degrau e "tocou o bonde".

 Além de rasgar a saia, ela esfolou-se toda. De pronto o sangue espanhol ferveu e o pobre do homem levou a maior surra de sua vida. Era, realmente, uma mulher de várias prendas mas seus melhores dotes estavam na cozinha e com ela aprendi muitas coisas.

Fazia uma carne assada divina, com tempero forte cuja receita passo agora:
 LOMBO ASSADO AGRIDOCE: Esfregue sal em todo o lombo. Bata no liquidificador 2 folhas de louro , alho, molho inglês (ou shoyo), cebola e salsinha  com  umas 3 colheres de limão e 1 colher de massa de tomate (para dar cor). Jogue sobre a carne, acrescentando azeite de oliva e molho de pimenta   (cumari ou dedo de moça). Leve para assar, envolto em papel alumínio, em fogo alto até ficar macio (1 hora e meia, mais ou menos, retirando o papelo alumínio uns 15 minutos antes). Transfira o lombo para uma travessa ou bandeja e leve a assadeira com o molho para a chama do fogão, acrescentando dois copos de água e a calda de uma lata de ameixas pretas (somente a calda). Com uma colher de pau vá mexendo e desgrudando o molho da assadeira até ficar mais espesso. Despeje o caldo  sobre o lombo, enfeitando com as ameixas. Sirva com arroz branco, farofa  e uma salada de folhas.                       

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A MIRANDINA

A Mirandina contou-me que certa vez, quando era gerente em uma Agência no interior da Bahia, tinha como concorrente um gerente muito gozador chamado Gildázio que mandou imprimir e distribuir pela cidade toda, panfletos anunciando que a Agência local do Banco X (onde ela era gerente) estava selecionando pessoas para participarem de um programa de TV muito famoso à época, o "Topa Tudo Por Dinheiro".

  Minha baianinha 3M,  como a apelidei (Mirandina de Moura Miranda), viu-se na maior dificuldade para se desembaraçar de todo aquele pessoal doido, querendo fazer malabarismos e coisas completamente loucas dentro da Agência. Vieram palhaços, engolidores de faca, quebradores de tijolos, macaco batedor de carteiras, papagaio que cantava hinos religiosos e até um jegue que fazia não sei lá o quê...  
 Ela descobriu o autor do vexame e deu o troco de uma forma mais contundente: 
O único jornal da cidade era bisemanário e na 4ª feira saiu, na primeira página, o comunicado de falecimento do Sr. Gildázio de "Tal", muito querido Gerente do Banco Y, cujo corpo seria velado no saguão daquela Instituição, a partir das 10 da manhã.  

A Mirandina foi a primeira a aparecer e lá por volta das 9 horas já tinha uma multidão de curiosos, clientes chorosos, coroas de flores mandadas pelo Rotary, pelo Lions, pelos Amigos do Footboal, etc...  Quando o Gildázio apareceu (já que bom gerente baiano chega somente na hora de abrir o Banco), a multidão saiu a gritar espantada e foi aquela confusão. 

Só Mirandina sorria...

No único jantar que ela ofereceu em seu diminuto apartamento na Asa Norte de Brasília, o prato foi uma Moqueca Baiana, deliciosa, que mais tarde eu fui aperfeiçoando e acrescentando alguns detalhes. Para quem não sabe, existe a Moqueca Baiana e a Capixaba (esta leva urucum). Misturei as duas receitas mas continuo a batizá-la de
 Moqueca 3 M
Bater no liquidificador 1/2 maço de coentro, 1 maço de cheiro verde, 2 cebolas, 3 tomates, 2 dentes de alho,  caldo de pimenta malagueta ou cumari (prefiro a cumari) e sal. Temperar 2 kg de postas de peixe (pode ser caçonete, pargo, namorado, robalo ou badejo) com sal, alho e limão.  Levar os ingredientes batidos para cozinhar até formar um molho encorpado.  Em uma frigideira grande ou panela de barro, espalhar azeite de oliva e deixar frigir. Colocar as postas de peixe, jogando o molho por cima . Acrescentar 1/2 vidrinho de azeite de dendê, rodelas de tomates, rodelas de pimentão e rodelas de cebola. Misturar 2 colheres de urucum (colorau) desmanchado em meia xicara de água quente. Por último, acrescentar 1 vidro pequeno de leite de coco e salsinha picada. Deixar sobre fogo forte e apenas chacoalhar a panela, sem mexer, para não grudar no fundo. Servir com arroz branco e pirão.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

EASY RIDER - PARTE FINAL (A CAVERNA DO DIABO)


Na volta, quase sem dinheiro, só comíamos melancias que eram vendidas à beira da estrada.
A certa altura do campeonato, tivemos que furtar as melancias: enquanto o Valter levava o vendedor para ver os frutos que estavam do lado de lá da estrada, eu e o Tininho, enfiávamos algumas por detrás do banco do fusca. Deus foi testemunha e confesso que errei! 


Até hoje cumpro a pena de ir ao   cemitério, todos os anos, no dia de finados,  a fim de comprar melancias...





 Passando por Cananéia, resolvemos conhecer a famosa “Caverna do Diabo”. Chovia muito e a estrada, no meio da mata fechada, era íngreme e precária mas conseguimos chegar até lá. Valeu a pena pois é um conjunto impressionante de grutas e cavernas milenares, com suas estalactites que ao longo dos séculos foram se formando e adquirindo formas das mais diversas e assombrosas, fazendo jus ao nome que leva.

 À tarde, quando nos preparávamos para o retorno, veio a notícia que havia caído uma barreira naquela bendita estrada, BR 116 e enquanto não parasse a chuva teríamos que ficar por ali. Armamos a barraca mas, quem disse que dormimos! O precário abrigo quase foi arrastado pela enxurrada e nos escondemos na varanda de uma lanchonete. Assim passamos a noite, tiritando de frio.

 Pela manhã, morrendo de fome e frio, negociamos com o dono da lanchonete: ele ficaria com todas as bugigangas que nos restavam, lampião de gás, botijão, lanterna náutica e até mesmo a barraca, em troca de refeições e um canto para a gente dormir nos dois dias que ali ficamos... horrível!

 No sábado cedo, chegamos à São Paulo e apesar de o Valter queixar-se muito de dores na mão inchada, raspamos os fundos das carteiras e ainda fomos assistir ao filme “O Terremoto” que estreara naquela semana, estrelado por minha dupla favorita de atores: Ava Gardner e Charlton Heston (aliás, ele faleceu há pouco tempo, aos oitenta anos).

 Finalmente, chegamos em nossa cidade no início da noite de um sábado de carnaval, 45 dias após termos dado início àquela aventura de loucos; extenuados, magros e bronzeados mas, com fôlego o bastante para vestirmos as fantasias de nosso bloco carnavalesco, que já estavam prontas e confeccionadas à nossa revelia.

Quando a namorada do Valter, já preparada para o baile, apareceu com a fantasia para o coitado vestir, ele desandou a gemer, febrilmente:
“Não, não... essa fantasia não, por favor!”.Naquele ano, nosso bloco saiu fantasiado  de... ciganos!!!

Esqueci-me de contar que na volta, em Sao Paulo, só o Valter teve direito de almoçar, pois estava fraco e enquanto ele saboreava uma enorme posta de salmão com legumes, nós comíamos...pipócas! Por desaforo, vai uma receita de salmão... 

 SALMÃO NA GRELHA:  Uma posta de salmão de 500 gramas; sal a gosto; 6 colheres (sopa) de azeite de oliva; 4 dentes de alho espremidos; 3 colheres de manteiga e 3 colheres de alcaparrase 2 colheres (sopa) de salsinha desidratada. Esfregue o sal na posta de salmão e grelhe por mais ou menos 10 minutos, virando-a, com cuidado, no meio do tempo Frite os demais ingredientes por 4 minutos e despeje sobre o salmão, servindo imediatamente, com arroz à grega e batata palha.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EASY RIDER - PARTE VI ( CAMBORIU )

 No dia seguinte, ressaca brava e a notícia: “Vamos embora desta terra!  E a partir de agora, nada de hotel pois o dinheiro está curto....” Sobre o capô do carro estava a barraca de três compartimentos que o Valter levou para alguma eventualidade e chegando em Camboriu, fomos logo procurando um camping.

 Nosso vizinho de barraca era um argentino chamado Hector  que, coisa rara entre os argentinos, era muito simpático e convidou-nos a compartilhar de seu churrasco: bife chorizo na grelha e salsichas. Comemos tanto que ele, arrependido, nunca mais nos convidou para compartilhar de seus grelhados.

Foram dias de muita diversão em Santa Catarina, rincões que abrigam a mais bela espécime de brasileiros. As meninas eram lindas e o balneário de Camboriu, àquela época, não era tão freqüentado, mais selvagem e despojado. A inflação na Argentina estava muito alta e então, as praias de Santa Catarina ficavam lotadas de porteños. Como as meninas gostavam mais de sair com eles, comecei a falar em castelhano e obtive relativo sucesso até que escorreguei na maionese quando falei para uma delas:  Niñaanda qué ya viene la chuva!. Ela,escolada, me disse: “Você é argentino de araque, guri: Em espanhol, o certo é lluvia e não chuva!“.

O dinheiro acabava e paramos de almoçar e jantar. Comprávamos um frango recheado (muito barato por lá) e comíamos a metade no almoço e a outra metade à noite, mas passeamos muito, Brusque, Florianópolis, Blumenau, etc...
 Em Balneário, tentamos entrar numa colônia de nudistas mas fomos barrados devido ao alto teor alcoólico no sangue. Inconformados, subimos em uns rochedos que rodeavam a colônia para dar uma de voyers  mas não conseguimos ver nada.

 O mar ali era violento e as grandes ondas vinham quebrar nos rochedos, causando  estrondos assustadores. O Valter, então, deu a idéia: “Vamos tirar umas fotos pelados e daí a gente diz lá em São João que estivemos na colônia de nudismo.” Ele bateu uma foto minha e do Tininho e quando fomos fotografá-lo, estourou uma grande onda por trás dele que o carregou, rochedo abaixo. Com muito custo conseguimos resgatá-lo, todo esfolado e sangrando.

Levou vários pontos nas mãos e cabeça e não podendo mais dirigir, com a mão que bateu na cigana, toda enfaixada, deixou o fusca  sob meu comando. 

E para relembrar os grelhados do argentino, segue uma receita bem simples e saborosa:
Peito de frango grelhado FRANGO GRELHADO DO ARGENTINO:  Corte um frango ao meio, na horizontal (despreze toda a parte das costas); tempere-o com o molho argentino "Chimichurri"hidratado ( receita do dia 24/08/2010),  acrescentando mais 4 colheres de azeite; 4 colheres de água e 3 colheres de vinagre. Deixe no tempero por várias horas, ou de um dia para o outro. Deixe grelhar por 10 minutos de um lado e 10 minutos do outro. Sirva com batatas sautè ou legumes levemente refogados na manteiga (batata, palmito, ervilhas e salsa).

terça-feira, 21 de setembro de 2010

EASY RIDER - PARTE V (NUMA BOATE EM PORTO ALEGRE)


 Naquele mesmo sábado, fomos a uma boate, de Porto Alegre, chamada Emmanuelle”(nome de um filme de grande repercussão à época),, onde conheci uma guria, loira linda que naquela noite completava 19 aninhos. Disse-me que eu seria o seu grande presente e ao final iríamos apagar velas juntos mas que enquanto isso, tinha que trabalhar. 
E como trabalhou...


 Enquanto eu tomava um Whisky atrás do outro, vi que ela saiu acompanhada umas quatro ou cinco vezes. Ao final da noite eu estava “prá lá de Bagdá”, quando ela veio com graça dizendo que poderíamos “apagar a velinha e desembrulhar o presente”. Bêbado e aborrecido, fui ríspido: “Minha filha, nem tente puxar a fita pois o presente tá quebrado e a vela já se apagou...” 

 O Valter teve melhor sorte, aparentemente... Logo de cara grudou-se com uma loira, alta, de fechar o comércio, de codinome “Beija”. Ela vestia uma saia de lamê prateada, justíssima e umas meias lurex, listradas e brilhantes.  Era um show de mulher!
Dançaram a noite toda e ele, que não bebia, arriscou-se a esvaziar umas três garrafas de vinho com a loira.

Ficou tão encantado que quis levá-la para nosso quarto de hotel e, logicamente, eu e o Tininho teríamos que dormir no carro. 
 Apesar de nossos protestos, ele enfiou a “moça” no fuscão e pediu para eu ir guiando enquanto ficava no banco de trás, dando amassos.  Fiquei imaginando a madrugada horrível que iria passar, de ressaca e espremido no carro. 
Olhei para o Tininho e vi que já estava roncando. “Esse aí só sabe dormir e peidar!”, pensei, com despeito.

Do banco de trás vinham os gritinhos e sussurros: “Deixa, deixa...”;  “Ainda não, espera chegar lá!” E de repente não mais que de repente, ouvi o Valter gritar furioso: “F.D.P. por que não me avisou?!” Num tranco, que fez o Tininho acordar, parei o carro e perguntei assustado: “Mas o quê está acontecendo aí atrás!” O Valter estava possesso:  
 “Enchi minha mão, o lazarento é homem, boiola, bicha, traveco!!!”.

Respeitamos a vergonha dele e nada comentamos até a chegada ao hotel, porém, antes de pegar no sono, não pude resistir e comentei: “Tu te lembras da cigana? Tua mão vai secar...”

Ainda lembrando-me de "Santa Felicidade", o bairro italiano de Curitiba, vou passar uma receita especial, que vocês não podem deixar de fazer: 
 RONDELLI COM RECHEIO DE NOZESComprar a massa pronta (Rondelli ou Canelloni) cozinhar em água, sal e azeite. Colocar para enxugar em um pano de prato (ficar bem enxuta). RECHEIO: 1 ricota fresca, 1 copo de requeijão, 1 pitada de pimenta branca e 3 pitadas de nós moscada (pitada é o quanto você consegue pegar com os dedos polegar e indicador, rsrssr). Passar a ricota na peneira, misturando os demais ingredientes. Por último, acrescente 70 gramas de nozes, esmagadas em pedacinhos. Rechear e cortar os rondelles (como rocambole); se for canelonni, é só rechear e enrolar. MOLHO BRANCO: Derreter, em fogo baixo, 3 colheres (sopa) de margarina, acrescentar, aos poucos, 4 ou 5 colheres de farinha de trigo, mexendo bastante para não empelotar. Juntar, aos poucos, 1 litro de leite, sem parar de mexer; 1 colher (sobremesa) rasa de sal e 1 pitada de nóz moscada ralada. Deixar engrossar, jogar sobre a massa, salpicar queijo ralado. Levar ao forno para gratinar.
É especial!!!!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

EASY RIDER - PARTE IV (AS CIGANAS DE GRAMADO)

 Então... os dois ficaram sem conversar por uns três dias e eu no meio tentando apaziguar. Num sábado, porém, fomos até Gramado e fiquei encantado com aquela cidade. Até então eu não conhecia a  Europa e nem a América do Norte e imaginei que assim seriam as cidades naqueles continentes frios, com suas casinhas de madeira, jardins coloridos e tetos inclinados para o escorrimento da neve.

 Estávamos eu e o Tininho a tirar fotos, enquanto o Valter abastecia o carro, e nem percebemos a aproximação de três ciganas que se dirigiram a nós com aquela fala aguda e extravagante, cheia de chiados. Eu que nunca gostei dessas estórias de ler a sorte, videntes e cartomantes, fui afastando-me aborrecido mas o Tininho ficou enroscado com a mais velha delas. A cigana pediu-lhe a nota mais alta que ele tivesse na carteira, pois com ela faria um sortilégio que, no futuro, faria dele um milionário.

 Sem coragem de safar-se, ele entregou para a mulher uma nota de quinhentos cruzeiros (valia bastante) e enquanto tagarelava apressadamente com as outras duas, deixando-o meio zonzo, ela sacou um crucifixo da faixa amarela que trazia à cintura e começou uma espécie de benzimento sobre o dinheiro. Ao mesmo tempo em que benzia, ia dobrando a nota em quadrados cada vez menores, até que a mesma desapareceu de suas mãos. Guardando novamente o crucifixo, elas foram se afastando apressadamente.

Nesse meio de tempo, o Valter chegou e narrei-lhe o fato. Ficou uma arara de bravo, montamos no fusca e saímos ao encalço das gitanas. Ficamos no carro enquanto ele partiu para cima delas. Agarrou a buena dicha e por força de uns safanões e tapas na cara, ele conseguiu recuperar a grana.
Ficamos horrorizados com a violência do colega e com as maldições que as ciganas nos lançavam. Só compreendi quando pronunciaram mala suerte!...malo hado! ...manos marchitas!

 O Valter perguntou-me o que elas diziam e respondi: “que tuas mãos vão ficar secas...”
Durante todo o trajeto de volta à Porto Alegre, o Tininho quase não abriu a boca, de tão assustado. Chegando ao Hotel, o Valter deu-lhe um abraço, pediu desculpas e tudo se assossegou.

 Arroz Cigano:   2 copos de arroz lavado e bem escorrido; 4 colheres (sopa) de óleo; 4 dentes de alho bem picadinhos; 1 cebola pequena bem picadinha; 1 colher (de sobremesa) rasa de sal; água fervente para o cozimento. Frite o alho e a cebola no óleo até ficarem queimadinhos (marrom mesmo). Junte o arroz e frite bastante, mexendo sempre. Acrescente o sal e frite mais um pouco. Ponha a água fervente (até uns dois dedos acima dos grão de arroz). Abaixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar


É ótimo, não leva muito sal e com um sabor irresistível