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"Crenças e Desavenças" - Editora Baraúna
"Qual será o Sabor da crônica?" - Editora Baraúna
Cada título contém 40 crônicas e pequenos contos de pura alegria com o mesmo número de receitas "que dão certo". Pedidos através:
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

O "CHICO BELO"- II

Depois do susto na caixa d'água, o Chico Belo aquietou-se por um bom tempo. Inclusive, meu irmão mandou-o para Morrinhos, no interior de Goiás, com o propósito de tomar conta de uma boiada e que ficasse por lá até que as reses fossem vendidas. Nos finais de semana, quando ocorriam os leilões, meus irmãos iam para lá, hospedando-se em hotéis ou pensões, enquanto o Chico Belo dormia em um barracão, juntamente com vários outros boiadeiros.

Nos leilões e rodeios, sempre havia, entre os vaqueiros, um cozinheiro responsável pela gororoba do dia a dia. Não precisava ser um grande chef de cuisine para satisfazer aquele bando de homens, quase sempre bêbados. Bastava saber fazer um arroz com suã, feijão, charque ou carne moída e, de vez em quando, assar uma carninha. Dessa vez, lá em Morrinhos, o cozinheiro era o Aléssio, gay assumido e já meio coroa.

O povo dizia que o Chico era bem dotado, inclusive tinha o apelido de "Chico Tripé". Assim que o Alessio soube da fama, começou a derrubar as asinhas sobre ele, preparando-lhe pratos e sopinhas especiais.

Numa tarde, em que o Chico Belo chegou meio bêbado, o Alessio resolveu assediá-lo e quando nosso amigo preparava-se para deitar, o cozinheiro caiu em cima dele. Chico Belo já tinha descalçado uma das botas e num reflexo defensivo, meteu o grosso salto de madeira na testa do outro. Largou o cozinheiro por ali, sangrando, e foi pedir guarita aos meus irmãos, na segurança do hotel.

Naquela mesma noite, foram todos a um arrasta-pé num galpão improvisado, ali por perto dos currais e barracão. Estenderam umas lonas, seguradas por bambus, penduraram um lampião de carbureto no teto e "dá-lhe pinga, sanfona e pandeiro".

Chico Belo levou um farolete para guiá-lo na escuridão do caminho e chegando ao bailão, colocou o instrumento no bolso das calças, caindo na farra. Tirou para dançar, uma das caboclas, daquelas goianas bem parrudas e a mulher foi logo esfregando-se nele, toda assanhada.

Na verdade, a mulher "acoxava" ele só para provocar o amante que também estava por ali, dançando com outras. E o Chico Belo, pensando que estava agradando,foi logo avisando, num tom safado: _ Calma, morena, que o volume que você está sentindo, é só o farolete que eu guardei no bolso!

Não demorou muito até que o namorado da goiana invocou com a sem-vergonhice da mulher e partiu para cima do casal. Com um soco certeiro, derrubou o Chico na poeira do salão. O pobre, vendo-se acossado em meio a tantos desconhecidos, não teve duvidas: arrancou do bolso o farolete e num arremesso certeiro, atingiu o único lampião que alumiava o bailão.

Naquela escuridão toda, o barraco veio a baixo e o fuzuê ardeu feio! Mais uma vez Chico belo conseguiu safar-se da morte por vingança passional. Acabou seus dias, numa roça de milho, por conta do veneno de uma jaracuçu do rabo grosso.

Como exemplo das comidas fortes e saborosas, costumeiras nesses ranchos e fogões de boiadeiros, passo essa receita de:

SUÃ COM ARROZ: 3 quilos de suã (vértebras com parte do filé suíno); 4 ou 5 xícaras de arroz; alho; sal; cebola; cheiros verdes; pimenta a gosto; manjericão; louro; limão; azeite e 1 colher (sopa) de colorau. Compre suãs bem carnudos mas não muito grandes e tempere-os com sal e limão. Bata os demais temperos no liquidificador com 1 xícara (chá) de água e junte-o ao suã, deixando marinar por algumas horas.

Frite os pedaços em óleo quente, numa panela grande, até ficarem bem dourados. Acrescente o colorau, um tanto do tempero batido e vá juntando água fervente, aos poucos, até ficarem macios. Misture o arroz lavado e água fervente suficiente (uns dois dedos acima da mistura), acerte o sal e tampe a panela. Deixe em fogo baixo até o arroz ficar cozido, porém, ainda úmido. Espalhe salsinha por cima e sirva de imediato, acompanhado de salada de folhas.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A TIA - II

Descobri o nome das três morenas da paineira: Alzira, Elmira e Elvira. A do meio é a Tia.

No último aniversário do Ciro Ney, nós fizemos Tia Elmira tomar quase uma garrafa inteira de cachaça. Até colamos, no rótulo da bebida, um papel escrito: "da Tia". E ela bebeu... a noite toda! Disse-nos que estava chateada pois seu dia havia sido muito complicado, por força das limitações que a idade lhe impunha e pela incompreensão das pessoas.

Após meia garrafa de cachaça, ela contou-nos a razão de suas mágoas: Naquela manhã ela acordara bem contente, pois iria almoçar na casa do Landão, um antigo amigo. Estranhou o fato de estar sem a dentadura de cima e não se lembrava de tê-la tirado para dormir. Procurou na gaveta do criado mudo, na penteadeira, na pia do banheiro e nada!! Desesperada, ligou para o amigo, mentiu que estava com uma forte enxaqueca e cancelou o almoço: Jamais sairia sem dentadura...

Mais tarde, quando foi arrumar e alisar as cobertas da cama, sentiu algo saliente. Era a dentadura que escapara de sua boca, enfiando-se num buraco do velho edredom. Retornou para o Landão, confirmando sua presença, "já que a enxaqueca havia passado."

O amigo serviu feijoada e tomaram várias caipirinhas. A sobremesa foi uma espécie de torta de chocolate, chamada Tiramissú, deliciosa mas que, definitivamente, não combina com feijoada e cachaça!

De repente, a dor de barriga apertou... Percebendo que a "explosão" seria terrível, não quis usar o banheiro de Landão e foi despedindo-se às pressas. Morava no final da avenida mas, já no começo, sabia que não daria tempo de chegar.

Pelo meio do caminho, entrou numa loja das Casas Pernambucanas, mas a balconista ruiva, "com unhas de puta", foi categórica: _ O toilette é só para funcionários!

Percebendo que não adiantava insistir, branca como os lençóis que a balconista dobrava, Tia Elmira saiu da loja, cambaleante: _ Meu Deus, não vou aguentar!

Um pouco mais adiante, ela topou com uma jovem, com roupas de enfermeira que saía de sua casa, com as chaves na mão. Enquanto a moça encostava o portãozinho do corredor, a Tia agarrou seus braços, desesperada: _ Filha, pelo amor de Deus! Deixe-me usar teu banheiro?

_ Ah, larga do meu braço sua velha doida! Eu já estou atrasada e não vou abrir a casa para ninguém... A Tia, com as pernas cruzadas e as mãos na barriga, ainda insistiu: _ Por favor, estou quaze fazendo nas calças! A enfermeira respondeu-lhe com a bunda e assim que dobrou a esquina, Tia Elmira empurrou o portãozinho e correu para uma pequena varanda, no fundo do quintal.

Agachou-se e foi aquela pororóca! Sentiu até os pelos dos braços arrepiarem-se de tanto alívio. Como não achou papel, limpou-se com um lençol branco que encontrara no varal. Saindo dalí, retornou à Loja da Pernambucanas e procurou a mesma balconista ruiva que lhe recusara o toillete. _ Pegue para mim dois lençóis brancos, dos mais caros que tiver na loja.

Após a venda, a moça perguntou-lhe: _ A senhora vai usar o crediário?

A Tia, com ar de desdém, respondeu-lhe: _ Não, filha... eu compro com cartões de crédito. Quem usa crediário são as balconistas ou enfermeiras!

Pediu papel e caneta emprestados, escreveu um bilhete e voltou à casa da enfermeira. Olhou para a varanda e riu-se do estrago que aprontara. Estendeu os dois lençóis novos no varal e deixou, preso ao arame, o seguinte recado: _ Sou velha, mas honesta!!

Tudo bem, não deveria mas...vou deixar a receita da sobremesa italiana:

TIRAMISSÚ: 4 ovos; 4 colheres de açúcar; 300 gramas de requeijão firme (mascarpone); 1 lata de creme de leite (sem soro); 1 pacote de biscoito champagne; 1 colher (de chá) de baunilha; 1 colher (sopa) de licor de cacau ou brandy; 1 xícara grande de café e 100 gramas de chocolate meio amargo raspado ou chocolate em pó.

Bater as gemas com o açúcar, adicionar o requeijão, o creme de leite e bater mais. Misturar com as claras em neve, até ficar um creme uniforme. Juntar o licor (ou brandy) ao café, molhando os biscoitos nessa mistura. Forrar uma travessa com os biscoitos molhados e espalhar metade do creme por cima. Dispor outra camada de biscoitos e o resto do creme. Alisar bem e espalhar o chocolate (raspado ou em pó). Levar à geladeira.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A TIA

Prá falar a verdade, no momento, esqueci-me do nome dela. Mas é Tia da Marlene, mulher do Ciro Ney, meus amigos. Aliás, nós todos a chamamos por Tia e ela é uma figura ímpar, umverdadeiro barato!

Muito embora já tenha passado a casa dos setenta, é uma mulher vaidosa e bem bonitona. Não aparenta a idade que tem... Disse-nos que na juventude, ela e as irmãs foram famosas bela beleza. Eram conhecidas como as "morenas da paineira", pois moravam numa chácara, pertinho da cidade e na porteira de entrada, havia uma árvore dessa, bem grande.

Pelo gosto do pai, elas deveriam casar-se com doutores ou fazendeiros e preparou-as para isso. Todas sabiam tocar piano, receberam aulas de etiqueta e falavam o francês fluentemente. Mas, designos do destino... nada disso aconteceu! A mais velha casou-se com um violeiro, a Tia, com um caminhoneiro e a mais nova, tornou-se professora e solteirona.

A mulher do violeiro ficava acordada, noites e mais noites, à espera do marido, o qual, invariavelmente, chegava bêbado e com a viola fora do saco. E, ai dela, se reclamasse! Levava violada na cabeça... Bebeu tanto, até morrer com cirrose hepática.

Ver imagem em tamanho grandeO marido da Tia era um romântico e ela, apaixonada, não se cansava de elogiar o maridão. Sujeito trabalhador, passava semanas e semanas na estrada, a fim de trazer conforto para ela e aos filhos! Toda a vez que retornava de Belém do Pará, trazia-lhes pupunha, cupuaçu, açaí e outras frutas típicas daquelas terras.

O que ela não sabia é que quando ele para lá voltava, também levava jabuticabas, uvas, pinhão e goiabada cascão para a família que mantinha em Belém: mulher e dois filhos...

Acabaram contando para ela e a Tia ficou desarvorada, sem saber o que fazer. A irmã solteirona dizia-lhe para abandonar o marido. A viúva, aconselhava: "Fica com ele, pois eu sei o que é solidão... É melhor dividir um bife do que comer agrião!"

Mulher ferida não raciocina e... o homem foi-se embora. A coitada ficou com uma pensão tãomerreca, que mal dava para pagar o aluguel. Aos poucos, vendeu tudo o que tinha. De valor, mesmo, só lhe restaram o fusca vermelho e um anel de brilhantes. Já no fim do poço, a irmã deu-lhe a idéia: "Vamos até Aguaí, lá tem um macumbeiro dos bons e com a a ajuda dele, teu marido volta para casa. Foi ele quem fez meu finado parar de beber..."

A Tia estranhou aquele papo: "Mas, se teu marido morreu com cirrose?!" A irmã ponderou: É, morreu... mas, uns dias antes, ele tinha largado da bebida!

O "pai de santo" afirmou-lhe que o marido voltaria para casa, dentro de três semanas, em troca do anel de brilhante que ela trazia no dedo. Ela concordou e aguardou. Passaram-se duas, três, quatro semanas e... nada!

De volta à Aguaí, dessa vez, o homem conduziu-as a um ranchinho no quintal, cheio de imagens com chifres e capas vermelhas: _ É, minha filha, os exús de Belém são bem fortes! A outra mulher fez um trabalho dos grossos, para segurar teu marido. Vai ser preciso muito dinheiro para quebrar as correntes. Quanto você pode pagar?

Acabou deixando o fusca, levando a promessa de que, antes de dois meses, o marido estaria entrando em sua casa: _ E pela porta da sala!

Numa tarde, lá pela hora da "Ave-Maria", a Tia viu estacionar à porta, uma perua de resgate. Dois homens entraram pela porta da sala, transportanto o corpo de seu marido. O caminhão, carregado de laranjas, havia tombado numa curva, próxima à Atibaia e o único endereço que encontraram nos documentos do acidentado, foi aquele, o da casa da Tia.

Dessa vez, a macumba deu certo e, naquele momento, veio-lhe à mente, as palavras do "pai de santo": _ Muito cuidado com o que pedes aos espíritos, pois eles poderão atender-lhe...

Acho que aí no texto, eu falei sobre pinhão e então, lembrei-me dessa receita muito boa:

ARROZ MORENO COM PINHÕES: 2 copos de arroz, 4 colheres (sopa) de óleo, 4 dentes de alho picados, 1 cebola pequena picadinha, sal, água e pinhões (já cozidos e cortados em lâminas bem finas). Lave o arroz e espere secar bem. Frite no óleo a cebola e o alho, até ficarem queimados. Junte os pinhões e frite mais um pouco. Acrescente o sal (pouco) e o arroz. Misture até ficar moreninho. Junte a água fervente, abaixe o fogo e espere secar.

Não tenha medo de queimar, pois o segredo está aí. Use pouco sal, pois o sabor fica a cargo do alho e da cebola queimados.

sábado, 1 de maio de 2010

O "CHICO BELO"



Meu pai e meus irmãos sempre "mexeram com vacas". Vacas leiteiras, bois de corte, touros reprodutores, bezerros para engorda e por ai a fora... Passei minha infância e adolescência sentindo aquele cheiro de curral: misto de leite, feno e bosta fresca de vacas. Até que era um cheirinho honesto e aconchegante!

Sinto saudade de quando meu pai ou algum dos irmãos mais velhos me acordava, tipo quatro ou cinco horas da manhã para acompanhá-los até ao sítio. Iam buscar os latões cheios de leite e trazê-los de volta à cidade para serem entregues na LECO, companhia de laticínio da região. Eles carregavam-me consigo, um tanto para fazer companhia e mais para abrir as porteiras que eram inúmeras

Parece-me que naquele tempo o inverno era mais intenso e com mais neblina. Chegava ao curral, morrendo de frio e corria com minha canequinha de alumínio para que o retireiro a enchesse com o leite que saia das tetas, quentinho que até soltava fumaça...

O local onde as vacas leiteiras ficavam chamava-se estábulo ou retiro e o empregado encarregado da ordenha era o retireiro. Tivemos vários retireiros, pois era uma profissão dura e poucos aguentavam o tranco por muito tempo. Lembro-me de um deles, chamado Francisco e apelidado pelos meus irmãos de "Chico Belo". Nada a ver com beleza, pois o homem era feio pra caráio e foi justamente por ser feio que meus irmãos, maldosamente, assim o apelidaram.

O Belo era muito briguento e por ser magrinho, vivia apanhando de todo mundo nos forrós que frequentava. Voltava para casa completamente bêbado e machucado, guiando sua carrocinha de dois assentos. Aliás, de tão zonzo, ele não guiava nada e quem se encarregava de levá-lo até à porteira do sítio era o coitado do burro. De tanto trotar por aqueles caminhos, o animal já estava condicionado ao trajeto.

Chegando em casa, descarregava toda a valentia na pobre da mulher, que apanhava mais que cabrita na horta. Dizem que ele costumava bater nela com o gato: pegava o bichano pelo rabo ou pelo cangote e socava-o nas costas e pescoço da esposa. A coitadinha ficava toda arranhada e mordida pelo gato endoidecido.

Vizinho ao sítio, morava uma família meio cigana. O marido usava um chapéu todo enfeitado com fitas e sempre trazia ao pescoço um longo lenço vermelho. Sua figura era reconhecida ao longe tanto pelo lenço berrante, como por sua montaria, uma égua preta, alta e nervosa. O homem, apelidado de Tião Sartana era meio arredio e de pouca prosa.

Não é que o Chico Belo foi se engraçar com a mulher do cigano! Era só o marido sair de casa que para lá ia o retireiro.

Quando meu irmão ficou sabendo do perigoso affair, resolveu pregar uma peça no empregado. Primeiro, alertou-o de que o Sartana ficara sabendo da traição e que tinha jurado vingança.

No domingo seguinte, enquanto o Belo curtia a bebedeira da véspera, deitado na varanda do seu rancho, um bando de cavaleiros invadiu o sítio, gritando e dando tiros para o ar. Na frente da turma, vinha meu irmão, montado num cavalo preto e com um chapéu e lenço idênticos aos usados pelo cigano.

A mulher do retireiro sabia da farsa e conforme o combinado, começou a gritar desesperada: _Chico, corre que aí vem o Tião Sartana !

O coitado, sem saber o que fazer, subiu no telhado e foi esconder-se dentro da caixa d'água. Puxou a pesada tampa de amianto e ficou ali, quietinho, com água pela boca. De vez em quando, meu irmão dava um tiro para o ar, em meio à gritaria dos comparsas. Por mais de uma hora o safado ficou tiritando de frio, com medo de descer.

Só saiu depois que ouviu o tropel de cascos, batendo em retirada. Por longo tempo, deixou de frequentar bailes e botecos, evitando, assim, confrontar-se com o inocente cigano.

Por conta do leite, vou ensinar, hoje, como minha mãe fazia seus deliciosos queijos frescos.

QUEIJO FRESCO: 4 a 5 litros de leite (de preferência natural, caso impossível usar o integral não pasteurizado, mais gordo do supermercado). Uma tampa medida de coalho dissolvido em meio copo de água filtrada (o melhor é da marca Estrela), 1 colher rasa (de sopa) de sal. Amornar o leite (bem pouco, mais ou menos 37 graus). Misturar o coalho e o sal, mexer bastante para agregar os componentes. Deixar descansando por mais ou menos 30 minutos, até coagular. Com uma faca comprida, talhar toda a massa na vertival e na horizontal (fazendo um xadrez), pois assim, a massa separa-se do soro (líquido). Aguardar uns 10 minutos e coar toda a massa numa peneira (de plástico) ou em um pano bem fino e poroso. Deixar escorrendo por uma meia hora.

Colocar a massa em uma forma toda furada (eu uso um aro daqueles tubos hidráulicos, de plástico, todo furado nas laterais). Espremer bem a massa com as mãos, dos dois lados, para o queijo ficar lisinho, sem buracos. Coloque numa tábua de bater carne, um pouco inclinada para continuar escorrendo, de um dia para o outro. Desenforme e guarde na geladeira.

Dicas: A) Todos os utensílios devem ser extremamente higienizados. B) É importante que escorra todo o soro amarelado para não azedar o queijo. C) Se quiser um pouco mais salgado, no momento em que estiver espremendo a massa na forma, esfregue sal nas duas superfícies. D) Talvez não seja da primeira vez que o queijo ficará perfeito mas, com a prática chegar-se-á à perfeição.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A NOEMY

Certa vez, passei temporada em um Hotel de Águas de São Pedro/SP, e a proprietária tornou-se minha amiga. Noemy já era coroa e vestia-se de uma forma bem característica, com longas saias de tecido indiano, muitos colares, pulseiras e sandálias de couro cru. Seus compridos cabelos já estavam começando a branquear e eram amarrados numa espécie de coque, propositalmente mal preso.

Apesar do aparente desleixo, ela era bem perfumada e de maneiras finíssimas. Tinha uma voz doce e melodiosa que encantava a todos. Gostava de organizar, pessoalmente, os entretenimentos para os hóspedes. Cantava, tocava banjo, promovia bailes, jogos e gincanas, principalmente para os grupos com mais idade.

Batíamos longos papos e um dia perguntei-lhe qual o era o segredo para manter tanta vitalidade e entusiamo. Afinal de contas, pensava eu, era viúva e enfrentara uma barra pesada, com duas filhas para criar, além da responsabilidade de manter um hotel.

Era lá pelas quatro horas da tarde, intervalo em que os hóspedes costumavam tirar uma soneca, para alisar as rugas e ela, então, resolveu contar-me sua história. Sentou-se num sofá do Hall, ajeitou os fios de cabelos que teimavam em escapar do coque e confidenciou-me: _ João, eu não sou viúva... Aliás, não sou viúva, nem casada e nem solteira. Há cerca de vinte anos, meu marido saiu para comprar um quilo de linguiças e não retornou até hoje!

Ver imagem em tamanho grande Enquanto ela retirava os enormes brincos indianos das orelhas, pude observar os rasgos ocasionados pelo uso contínuo daqueles pesados balangandãs. Assim, distraído, perguntei-lhe: _ Mas, ele largou de você, foi isso?

Massageando, delicadamente, os lóbulos vermelhos, ela continuou:

_ Não sei te dizer! Era naqueles tempos da ditadura, de prisões e perseguições e um tio meu, que era militar, procurou por ele até nas dependências do DOI-CODI e... nada de encontrar o homem!. Às vezes penso que juntou-se à alguma seita religiosa ou esotérica e deve estar em algum lugar dos Andes, mastigando coca com as lhamas...

Querendo esticar conversa, eu voltei a perguntar: _ Mas, por que você pensa assim, ele era espiritualista, hippie?

_ Mais do que isso, era completamente doido. Quando a gente começou a namorar, eu era bem novinha e fiquei encantada com as loucuras que ele aprontava. Filho único, seu pai era dono deste hotel, com muito dinheiro. O velho tinha o maior desgosto, já que o filho não assumia responsabilidade alguma. Só queria saber de farras e festas, onde a bebida e maconha rolavam soltas.

Apesar disso tudo, Noemy, definiu-me seu primeiro amor com boas expressões da época: _ Era um pão, um verdadeiro pedaço de mau caminho!

_ Como nossos parentes não queriam nosso casamento, optamos por fugir. Ele pegou um tanto de dinheiro e a mercedes novinha do pai e lá fomos nós, estrada afora, rumo à São Tomé das Letras. Pelo meio da noite, paramos para descansar e ali, ele esvaziou uma garrafa de gin e fumou vários cigarros de maconha. Quando amanheceu, lá estava eu, desesperada e ele em estado letárgico... até que a polícia mineira chegou e levou-nos para a delegacia.

Acabaram por se casar, mas os pais não compareceram à Igreja. O sogro dela consentiu em deixá-los morar no hotel, em um pequeno apartamento, todo arrebentado, ao lado da cozinha. No mesmo dia do casamento, enquanto realizava-se a cerimônia religiosa, o velho resolveu trocar algumas telhas do apartamento. Quando os noivos e alguns amigos retornaram ao hotel, encontraram aquela balbúrdia...

_ Meu sogro escorregou do telhado, caiu e quebrou o pescoço. Morreu na hora e nossa lua de mel foi no velório. Assumimos o controle do Hotel, tivemos nossas filhas, vivemos relativamente felizes por oito anos, até que aconteceu o episódio da linguiça.

Muitos anos depois, conheci o Ariel, numa reunião esotérica, e estamos juntos até hoje. Sou vinte anos mais velha do que ele, mas nos amamos demais!

Mais tarde, ela apresentou-me ao Ariel, um rapaz bem alto, com cabelos lisos e compridos. Usava umas roupas esquisitas, com tiras de couro cru, penduradas no peito. Toda romântica ela perguntou-me: _ Ele não é lindo? Parece até Jesus cristo...

Olhando para aquele tipo diferente, eu pensei: "Tá mais pra índio comanche..." Em tom de brincadeira, cochichei para ela: _Esse daí nunca foi ao açougue?

Com uma gostosa gargalhada ela respondeu, orgulhosa: _ Que nada! Ele é vegetariano, só come da minha horta...

Falando em horta, vou ensinar como se faz um cabrito assado:

PERNA DE CABRITO ASSADA: 1 pernil de cabrito novo, com ossos; 1 cebola grande; 2 ramos de alecrim; 3 folhas de louro; salsa e cebolinha desidratadas; 8 dentes de alho; 1copo de azeite de oliva, 1 copo de água; meia garrafa de vinho branco seco; 1 limão grande; 1 vidro de molho inglês; bacon cortado em cubinhos; 3 colheres de manteiga; sal e pimenta do reino.

MODO DE FAZER: Com uma faca larga, faça talhos profunfos em todo o pernil. Esfregue por toda a carne, o sal e a pimenta. Bata no liquidificador, o suco do limão, a cebola, os dentes de alho, o louro, a água, o molho inglês, a salsa e a cebolinha. Joque ese tempero batido sobre o pernil. Enfie em cada buraco feito com a faca, um cubo do bacom. Por último, besunte com o azeite e o vinho. Leve ao fogo a manteiga e os raminhos de alecrim e dê uma rápida fritada. Despeje no cabrito e enrole a carne em papel alumínio. Assar por umas duas horas e meia. A cada meia hora, descubra o assado regue-o com o molho que se forma na assadeira.

Sirva com batatas e brócolis, cozidos e ligeiramente dourados em manteiga.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A MARIA DO CARMO

Quando trabalhei em Brasilia, ainda na época da ditadura militar, tinha uma colega cearense chamada Maria do Carmo que namorava um dos chefões do Serviço de Censura, Coronel "Não Sei das Quantas".

A Do Carmo já era bem coroa e feia como o capeta, além de mancar da perna direita. O que tinha de feia, tinha de brava e ... coitado daquele que se tornava seu inimigo!

Certo dia ela convidou-me para um jantar em sua casa (em Brasília tinha muito disso), cujo prato seria o famoso "Baião de Dois", comida típica do Nordeste, feito por Severina, sua cozinheira. O tal do coronel da censura iria também (diga-se de passagem que a Do Carmo ganhava, em primeira mão um exemplar de todos os discos que seriam ou não lançados, após o crivo da Censura).

Cheguei mais cedo para ouvir alguns dos "discos proibidos" e pude acompanhar a cozinheira na confecção do prato, anotando tudo, passo a passo.

A Do Carmo não tinha filhos e sua grande paixão era uma cadelinha (tão velhinha quanto a dona) chamada Champagne que soltava pelos e puns, pela casa toda. Estávamos sentados num sofá daqueles bem fundos e gordos, quando o "Coronel Censura" chegou. Ao levantar-me para cumprimentar o homem, pisei, com toda a força, sobre o quadril esquerdo da cadela e foi aquele escândalo: cadela latindo, Do Carmo gritando, coronel tossindo e eu gemendo pela mordida que levei.

Ligamos para a médica de Champagne e fomos (eu e a Do Carmo) até a Clínica, aberta somente para atender a bichinha.

Resultado: saímos de lá depois da duas da matina com a cadela enfaixada da cintura para baixo (cachorro tem cintura?!) e a Do Carmo chorando e brava comigo pois, devido à idade avançada (da Champagne), a médica veterinária achava que os ossos não mais se soldariam.

Paguei a consulta caríssima e fiquei sem comer o "Baião de Dois" da Severina . O osso soldou-se mas desde então, a cadelinha também ficou coxa do lado esquerdo e _ diziam as pessoas maldosas _ que nas caminhadas que as duas faziam pela quadra, enquanto a Do Carmo mancava do lado direito, Champagne puxava do esquerdo. Na cadência dos passos, minha ex-amiga dizia à mascote: "Deixa que eu chuto essa, Champagne!"

A colega nunca mais conversou comigo, até o dia de sua morte. Adefuntou-se por síncope cardíaca, após tomar um copo d'água gelada. Diz a lenda que quando o copo caiu ao chão, a cadela deu um longo uivo.

Depois disso, já fiz o tal prato várias vezes. É excelente, apesar de fazer-me lembrar daquela noite desastrosa. Vale a pena vocês experimentarem, portanto, anotem aí o famoso:

Baião de Dois da "do Carmo" 1 Kg de feijão-de-corda (na falta deste, experimente o feijão fradinho ou guandu); 1 kg de arroz; 1 kg de carne seca; 1 kg de carne de vaca (coxão mole ou músculo); 800 gramas de linguiça toscana ou calabresa; pimenta a gosto; cebola e cheiro verde picadinhos e 1 pimentão vermelho cortado em retalhos.

Cozinhe o feijão por 30 minutos, mais ou menos. Em outra panela, cozinhe a carne seca já dessalgada (para dessalgar,deixe-a de molho na água de um dia para o outro) juntamente com a carne de vaca, ambas cortadas em cubos pequenos, por 40 minutos. Afervente a linguiça, tire a casca e corte-a em cubos pequenos. Escorra bem todos os ingredientes. Numa panela grande, frite a cebola, o pimentão e o cheiro verde, juntando as carnes picadas, fritando mais um pouco. Em seguida, coloque o arroz lavado e escorrido. Junte o feijão já semi cozido (com tempero normal) com todo o caldo. Acrescente mais água fervente suficiente para cozinhar tudo. Prove o sal e deixe cozinhar em fogo baixo, de modo que fique um pouco úmido. Se necessário, coloque por debaixo da panela um "Chapex" para o Baião não grudar no fundo. É delicioso!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O PADRE PACO

Conheci o padre Paco pouco antes dele "largar a batina". Aliás, nem usava batinas...

Era natural da catalunha, numa região denominada Costa Brava, ao nordeste da espanha. Passou toda a infância miserável, com seus pais e mais nove irmãos, a limpar mariscos e todas as espécies de moluscos e peixes do mar. Posteriormente eram levados em grandes cestos e vendidos nos mercados ou feiras das cidades próximas. Ele dizia que o mau cheiro era tamanho que por toda sua vida carregou "aquele odor obsceno" nas narinas.

Já na adolescência, pegou amizade com o pároco da aldeia onde moravam o qual, interessado na vivacidade do rapagote, ajeitou-lhe uma vaga em um seminário de Barcelona. Foi a forma que encontrou para estudar, alimentar-se e fugir daquela vidalazarenta que levava.

Nunca mais retornou à aldeia natal pois, ordenado clérigo, partiu para Mallorca, posteriormente para as Ilhas Canárias e bem mais tarde, para o Brasil. Aqui, ele foi designado para várias paróquias, não parando muito tempo em cada uma, até que veio para a região e tomou-se de amizade com meu irmão mais velho.

Eu achava estranho aquilo, pois meu irmão é completamente ateu e como iniciou-se essa amizade eu não sei. Mas, em todas as festas e almoços, com a nossa parentela, o padre estava junto e ele era bem divertido. Sabia cozinhar também e adorava uma vodka bem gelada que, segundo ele, não deixava bafo.

Sua mania de contar piadas, sempre irreverentes, sua maneira de olhar bundas e peitos das mulheres, não me deixava iludido e até comentei com meu irmão: "Esse espanhol, de padre não tem nada e se vestisse batina de bronze, a gente escutaria muitas badaladas!"

Não demorou muito e ele deixou o sacerdócio para unir-se a uma de suas fiéis paroquianas, que cuidava dos eventos e reuniões da turma da "Renovação Carismática". Nunca mais vi o ex-clérigo. Há pouco tempo meu irmão contou-me que ele faleceu e a viúva nem vestiu luto... Foi vitimado por um incárdio no miofarto (síncope cardíaca decorrente de esforços repetitivos após a ceia), ao lado de uma desconhecida, em pleno Motel.

Bem, pelo menos, deixou alguma coisa de bom pois que me ensinou a fazer a paella de Costa Brava, e instruiu-me de que sua paella era diferente da Valenciana (que não leva carne de nada, apenas legumes e arroz); que paella é frigideira, em espanhol e que paellera são as mulheres que cozinham essa iguaria. Já fiz por diversas vezes e é um dos pratos mais solicitados pelos parentes e amigos:

PAELLA DA COSTA BRAVA (alterada ao meu gosto): 700 gramas de linguiça de porco; 700 gr de filés de frango (em pequenas tiras); 700 gr de filés de peixe (dourada, cação ou merluza); 1kg de camarões grandes (sem a casca); 500 gr de mexilhões limpos; 500 gr de polvo; 500 gr de lulas (em rodelas); 500 gr de mariscos (já limpos e aferventados); 500 gr de arroz; 1 pimentão verde e outro amarelo (ou vermeho) cortados em tiras ou em triângulos; 1 kg de tomates maduros sem a pele (em pedaços de 2 cm); 2 cebolas picadinhas; 6 dentes de alho em fatias; 2 latas de ervilha (ou 500 gr de ervilhas frescas); 1 colher(rasa) de tomilho seco ou sálvia; 2 tabletes de caldo de galinha; 1 xícara de vinho branco seco (para aferventar os mariscos); azeite de oliva; pimenta; sal; cheiro verde e 1 colher das de sopa de açafrão (imprescindível!; e melhor será se encontrar o legítimo açafrão espanhol, em estames); 300 gr de feijão verde já pré cozido, mas firmes (aquele lá do Nordeste, opcional, se você encontrar para comprar).

Modo de fazer: temperar o frango e o peixe separadamente (com alho, cebola, sal e molho inglês). Aferventar, separadamente, com água e pouco sal, o polvo, a lula e o mexilhão. O marisco (que é opcional), deverá ser aferventado, em panela tampada, com o vinho até que as conchinhas se abram (as que não se abrirem, jogue-as fora).

Numa frigideira apropriada (paella), frite, no azeite, a linguiça em pedaços pequenos (1,5 cm) e reserve-as. Acrescente mais azeite (se necessário) e frite os pedaços de frango, reserve. Em seguida, frite o peixe e reserve. Junte mais azeite (se necessário) e frite as fatias de alho e a cebola picadinha. Junte a lula, o polvo e os mexilhões, refogando um pouquinho. Acrescente o tomate, os pimentões coloridos, as carnes reservadas e 1 xícara de água morna contendo o caldo de galinha e o açafrão dissolvidos (se o açafrão for em estames, devem ser esmagados na água morna) e deixe refogar por uns 10 minutos. Junte o arroz, o feijão verde (opcional), o camarão, a ervilha e os temperos. Misture tudo e acrescente água fervente suficiente para cozinhar tudo (4 ou 5 xícaras). Experimente o sal e mexa, misturando tudo muito bem (só uma vez). Tampe a frigideira e deixe cozinhar em fogo brando por cerca de 20 minutos (tem que ficar meio úmido). Espalhe por cima o cheiro verde e enfeite com os mariscos abertos, camarões gigantes ou lagostins pré cozidos em água e sal. Apague o fogo e deixe a frigideira abafada (com a tampa e um pano úmido por cima) por uns 10 minutos, antes de servir.