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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A DONA ROSA "BOLACHA"

 A Dona Rosa "Bolacha" era nossa vizinha de frente...Não sei se ganhou esse apelido pelo fato de vender bolachas ou se era pela cara cheia e antipática que tinha. Ela penteava os cabelos brancos em um coque alto e usava um par de óculos redondo, parecidíssima com a Vovó Donalda, personagem das revistinhas do Pato Donald. Era avó do Amaral, meu melhor amigo e colega do Grupo Escolar Antonio dos Santos Cabral, lá perto da antiga caixa d’água.
 O Amaral nasceu com uma doença chamada "simioto". Era muito fraquinho e tinha feições simiescas (procurem o dicionário) e sua avó, muito religiosa, fez uma promessa não sei pra que santo, de vestir o garoto de branco até os 10 anos, se conseguissem sua cura.
 E não é que o pobre coitado curou-se! E teve que se vestir, inteiramente, de branco até àquela idade combinada com o santo. Enquanto todos os moleques iam à escola de azul marinho e branco, ele vestia-se como um anjo! Era alvo de toda a espécie de gozação e morria de ódio da avó, por conta da promessa.
Bom, crescemos juntos e eu adorava brincar na casa dele, pois tinha um quintal enorme, com várias espécies de animais e árvores. A frente da casa era bem afastada da rua, com uma cerca baixinha do lado da calçada.  
 Tinha um jardim maravilhoso, forrado de flores, amoras e morangos; muitos morangos, vermelhinhos e viçosos. Enquanto a avó ficava tricotando por debaixo de uma primavera e vigiando-nos por de cima de suas lentes, nós tentávamos apanhar os frutos às escondidas mas a velha era mais esperta do que nós, então, na maioria das vezes, ficávamos na vontade.

  A cerca da frente era de tábuas, com algumas frestas e nós dois costumávamos ficar ali, agachados mexendo com as pessoas que passavam. Lembro-me de uma vez em que o Urbano, outro menino de nossa idade que era evangélico, passou com seus pais em direção à Assembléia. Ia com a Bíblia debaixo do braço, de paletó e gravata e nós começamos a arremedar o hino que eles sempre cantavam na igreja: "A Tenda de Jesus jamais me faltará no coração..." Só que inventamos uma paródia, trocando a letra do hino para: "A Tenda de Jesus, dá um peido e apaga a luz..."
 O pai dele virou uma fera, arrebentou o portãozinho do jardim e foi bater na porta da casa, furioso. Nós ficamos escondidos no imenso quintal mas fomos encontrados e o Amaral apanhou bastante naquela tarde. Quando D. Maria Bolacha foi contar pra minha mãe, ela não deu muita bola não (minha mãe, ignorância de católica ferrenha, sempre foi intolerante com evangélicos).
  Numa sexta-feira santa, no entanto, demo-nos muito mal com essa mania de mexer com as pessoas. Estávamos ali de tocaia, quando passou a Gloreti, uma cabeleireira muito bonita (e que já foi personagem de uma crônica minha, no dia 14 /08 /2007 ) com sua saia de tergal xadrez, toda pregueada. Começamos a cantar uma paródia da música "Jambalaya" muito famosa à época : "Jambalaya levanta a saia que eu quero vêê, o que tem debaixo de vocêê..."

Nossa! Dessa vez eu apanhei demais; meu pai me pegou de "rabo de tatu" (uma espécie de chicote em forma de espada, de couro cru, com três línguas sobrepostas) que fiquei com as costas cheias de vergões. Apanhamos tanto que juramos vingança...uma vingança maligna!
 Meu pai nasceu em um domingo de páscoa e mesmo sendo móvel o data do dia santo, era sempre nesse domingo que ele comemorava seu aniversário. Um grande almoço à moda italiana, com comida farta e toda a família e amigos reunidos. Naquele ano ele havia trazido frangos, leitoa e dois cabritinhos para o "banquete" e os pobres chifrudinhos ficaram amarrados no fundo do quintal numa dieta de água e folhas de manjericão (para perfumar a carne).

 Durante a noite, os adultos foram para a Igreja, fazer a vigília do corpo do Cristo e lá ficariam até de madrugada, em jejum e orações.Tão logo nossos irmãos foram dormir, pegamos os dois cabritinhos famintos e os soltamos no jardim da Dona Rosa. Pastaram quase a noite toda e comeram tudo o que tinham de direito, desde os morangos e amoras até as dálias ordálias e hortênsias.
Manhã seguinte, acordamos cedo e, inocentes, fomos soltar papagaios...

Poderia ensiná-los a fazer um cabrito à espanhola ou recheado com castanhas mas como vocês não vão comprar cabritos mesmo, hoje a receita será à base de morangos:

 RECHEIO DE BOLO OU PAVÊ (MORANGOS) : 1 litro de leite; 5 colheres (sopa) de maizena; 10 colheres (sopa) de açúcar; 1 lata de creme de leite; 3 a 4 colheres de groselha. Levar ao fogo até ficar um mingau grosso (creme). Deixar amornar e misturar o creme de leite (sem o soro) e a groselha (o gosto). Passar sobre o bolo e espalhar morangos picados sobre o creme. Esse creme também pode ser usado para fazer um pavê com biscoitos "champagne": umedecer os biscoitos numa mistura de leite, açúcar e licor de cacau (ou Nescau). Faça camadas de biscoitos, creme frio e pedaços de moranguinhos.  

6 comentários:

  1. Caro amigo João!
    Será que a Dona Rosa "Bolacha" exalava bacalhau?
    Caloroso abraço! Saudações aromáticas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  2. Olá João!
    Tem promessa que nem Cristo aprovaria, quanto mais expor um filho ao ridiculo, em troca de um pedido atendido. Nunca entendi porque as pessoas precisam se torturar para pagar promessas. Ficaria mais digno e justo ajudar um asilo ou creche ou dar uma cesta básica para uma familia carente.
    Gostei do que vcs fizeram com os cabritos. Mas afinal eles foram ou não foram pra panela? Tadinhos...
    abços

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  3. Professor, com certeza ela exalava esse aroma (que para os italianos antigos, era o famoso "profumo di donna") kkk

    abs
    Joao

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  4. Cris, eles foram é para o forno e recheados de morangos e dálias. rsrs
    forte abraço
    João

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  5. Thais, eu era o caçula... e tá explicado! rsrs
    Abraços
    João

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